Please reload

EMANUELA - OS RETALHOS DE UMA HISTÓRIA DE EMPODERAMENTO

12 Jan 2018

 

 

Emanuela Pinheiro trabalhou por 12 anos como assistente executiva. Quando ocorreram alguns reajustes em 2014, foi cortada da equipe e enxergou nessa situação uma oportunidade de transição profissional. Desejou romper com seu perfil demasiado corporativo, para se dedicar aos seus projetos criativos. Pensando nisso, passou um ano sabático (2015-2016) como voluntária na Índia, coordenando projetos em instituições que conhecia desde o Brasil, como The Light of Buddhadharma Foundation e Sarnath International Institute, das quais já era praticante desde 2009.

 

Além de ser voluntária, a ideia era fazer uma peregrinação aos lugares sagrados do budismo. Mas em sua primeira viagem para Bihar, o estado mais pobre do país, o que a impressionou foi algo que descreveu como "uma indústria a céu aberto". Se deparou com diversas cenas de mulheres costurando na beira de estradas, crianças trabalhando em teares familiares junto com suas mães ao invés de irem a escola e ateliês onde esposas são subjugadas a abusos físicos e verbais, se repetiram inúmeras vezes durante seus deslocamentos por terra.

 

Ela lembra que em seu primeiro mês na Índia, sentia uma firme determinação de fazer um trabalho com mulheres e costura, mas por ser um segmento que desconhecia, não sabia por onde e como começar. Na segunda metade da sua experiência, dentro do monastério do Sarnath International Institute, começou a coordenar atividades administrativas do ateliê, o que proporcionou a elaboração de um projeto capaz de empoderar essas mulheres através da costura, e a partir desse ofício desdobrar questões essenciais sobre as condições das mulheres na Índia.

 

Por meio de sua experiência como mentora voluntária na instituição Pares-Cáritas RJ e ao ganhar o programa Shell Iniciativa Jovem, nasceu o projeto Mulheres do Sul Global, com a missão de empoderar economicamente mulheres refugiadas através da costura. No Rio, encontrou nas mulheres refugiadas, principalmente em grupos de africanas, um contexto parecido de vulnerabilidade, com o que havia se deparado na Índia, o mesmo que inspirou a iniciativa.

 

O projeto visa viabilizar para essas mulheres o aperfeiçoamento das técnicas, o acesso à máquina de costura e a construção de uma marca que tenha a identidade delas. Por exemplo, Emanuela pretende usar nas peças pequenas tiragens de tecido africano, enviadas pelas famílias que ainda estão no Congo, que seriam usadas apenas nos detalhes e  complementadas com tecidos de reuso, de cores lisas, comprados de estoques parados e coleções antigas. Proporcionando assim a confecção de peças de altíssima qualidade e gerando mão de obra cultural e artesanal, enquanto impacta positivamente o ciclo de resíduos que seriam possivelmente descartados.

 

A primeira coleção em costura foi de peças para o segmento da gastronomia. A inspiração veio da proximidade através do programa Coletivo de Refugiados Empreendedores - CORES e Programa de Atendimento a Refugiados e Solicitantes de Refúgio da Cáritas RJ - PARES Cáritas RJ, com colegas refugiados, que vêm ganhando cada vez mais espaço na cena gastronômica do Rio. Toda o lucro da primeira venda foi revertido para as quatro costureiras responsáveis pelo trabalho. O Mulheres do Sul Global - MSG, é um negócio social, que opera no sentido se ser autossustentável financeiramente, diferente da lógica de uma organização sem fins lucrativos.

 

O dinheiro do prêmio Shell Iniciativa Jovem será investido na aquisição de máquinas de costura reta e overloque industriais, no material de costura e em todo o aparato necessário para montar uma infraestrutura de trabalho adequada na casa das costureiras. A venda desse material trará renda para as costureiras, fôlego para o negócio e consequentemente empoderamento para mais mulheres refugiadas. Além disso, a conquista do prêmio do desafio de Moda Sustentável do ColaborAmérica 2017, proporcionará uma mini-aceleração com nomes de calibre alto na economia criativa.

 

Hoje o foco do projeto está voltado para a instrumentalização das 4 mulheres através de um curso intensivo de costura, onde elas trabalham o acabamento e aprender novas técnicas e na viabilização da máquina de costura de produção industrial que possibilita a criação de uma pequena coleção. Mas os objetivos são ainda maiores, o planejado é tornar as mulheres de sua equipe em Microempreendedoras Individuais, como forma de incentivar a autonomia dessas profissionais. Por isso, se cada uma delas tiver seu próprio ateliê em casa, trabalhamos melhor o empoderamento econômico e o impacto socioambiental local.

 

Emanuela lembra que o termo “refugiado” é jurídico e vem do direito internacional. São pessoas que demandam proteção e não podem voltar aos seus países de origem porque suas vidas estão em risco. Mas a falta de entendimento da narrativa dessas pessoas, no dia a dia, acaba acarretando reações preconceituosas. Juntando a isso as imensas dificuldades estruturais de inserção tanto social quanto profissional desses fluxos, o desafio se torna ainda maior. Através de sua própria jornada empreendedora, Emanuela tem oferecido a essas mulheres a oportunidade de exercer suas bagagens pessoais, que não são somente de trabalho, mas que proporcionam a resinificação e reconstrução de suas próprias vidas e as de suas famílias.

 

 

 

 

Share on Facebook
Please reload

Voltar para o início